segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Já o chão...

...
já o pão
é Japão
e perdão.
Já o chá
que era além
e queimava
e soprámos
me salva
é o verbo
em
cantado
entoado
alta voz
sem temores
por tenores
e sopranos.
Já viagem
viragem
é aragem
cara
vela
máscara

palco
branco
e estrela.

Risoleta C Pinto Pedro

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Carta de Mar e Ar

Aqui está mais um poema criado pela bela poetiza Risoleta Pinto, inspirado n'A Alegria das Rosas.

Em mim com
o pensamento
eu criei
o vento
a respiração
e fui ao Japão.
Aspirando o cheiro
criei nevoeiro.
No cimo da pele
inventei o mel
esconjurei o mal
e extraí o sal.
Por campos de arroz
em casa de noz
rumei junto à foz.
De sebes de flores
vestidos
e amores
expulsei temores.
Não há mal sob a pele
só há sangue
só há mel.
Não há mal sob a pele
é só sangue
é só mel
água sangue
hidromel.

Risoleta C Pinto Pedro, Fevereiro, 2008

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O Poema que originou tudo

Foi a partir deste poema que tudo começou.... Leiam e voem, como nós voámos.

A rosa inclina-se…
... preguiçosa ou gentilmente sobre si própria com a luxuosa preguiça de uma noiva e desdobra-se em maravilhosos panos e pétalas. Engole-se a si mesma como um guloso engodo. A rosa cobre-se com um véu ou um lençol que de si extrai, sem gemido, sem ai.
Rosa rara rosa cura rosa cara
Rosa rasa rosa chão rosa cava rosa pão
Rosa céu rosa erguida rosa véu
Rosa ser
pente
licor
rosa semen
te

…………………..

Num arrozal de rosas

num roseiral de arroz

a sós

bordei lençol

de avós

compus

o amor

libertei os laços

de nós

……………

Foi então que aprendeu que as rosas vêm do mar, que o pão vem das rosas, que o branco vem do coral e que as árvores vivem de cabeça para o ar.
A rosa alegre é a rosa que se perde na espuma das ondas, rosa afogada, rosa afagada, diluída, preparada. Para o nada. A rosa espelho de céu é rosa véu. A rosa espelho do véu é rosa gineceu.
Em jardim sobre a mesa
sobremesa
rosa paz.
É sobre o chão que se comem as rosas
é debaixo de céu que
as mais formosas
transbordam
e bordam
o véu.
Entre a cauda e o caudal
rosa
sal
mineral.

…….

Oculto esquadro
tecido
por in
visível
mão
re
pousa
sobre chão e
ergue-se
sobre véu dissolve
se
sob céu
deita
se em nervuras
no
viciadamente
aos pés
de si
mesmo
e jura
[face ao espelho
cara branca fundida
afundada em mar]
e promete
[espuma terra
semeada em pão
rosa-grão]
fazer do ar
o infindável rigor
licoroso
clarear

…………….

As árvores vivem
as árvores vestem-se
de noiva
e vivem
e viram-se
de cabeça
para o m
ar
como mulheres
a ondu
lar

……………………

E um dia as rosas…

... quiseram ser mar
e a espuma sonhou
vestido de noiva
e a cauda voou
véu
e o céu desenhou
coral
e o branco ardeu
em fogo
e outra vez
quis ser
ar
e a rosa
nave
gar

……


É então que o vestido me desagua aos pés como um rio
ou serpente
mar.
Pregas ondas e marés
costuras fitas linhas cosidas
em viés
espuma pétalas corais
desdobradas nervuras
renovados
ais.
Ritmado movimento
e
mobiliza
o tempo.
Voa o véu da vestal
corre a cauda em caudal
tafetá e ponto
pesponto
pronto
final.

……

PARTI…

Amor

pelo frio e

pelo mar

a bordo

de uma chávena

e já navio

e rio

e verão.

Já Japão e chá

nesta parte

donde me parti

e vi

e já o chá

fervia

e eu via

folhas no mar

chávenas no ar

nave clave

rosa

alegre gare

algures

sob a colcha

do mar

a concha

aconchegar.

Mar fogo e ar

lavar

……

Risoleta

2007/2008

A Alegria das Rosas :::_O Nascimento de uma nova Obra_:::::

Em plena expansão do espectáculo MATER, enquanto trabalhávamos a espada, surge na Amalgama um poema inspirado na visita a uma exposição sobre “O Véu de Noiva” da autoria de Ana Vidigal e Ruth Rosengarthen. Este poema foi o pronuncio de uma nova peça.

A primeira resposta ao texto foi uma imagem. Alguém se reflecte num espelho de água vertical. Um rosto com cabelos de trigo, símbolo de abundância, sol, alegria. Esse rosto está do outro lado, onde já não há corpo, mas apenas matéria de sonhos.

O espectáculo A Alegria das Rosas será dançado por 8 bailarinos ao som de música original interpretada ao vivo com taças tibetanas, percussões, voz e guitarra. Será inspirado no poema, nos intérpretes e no mar como ponte entre o Ocidente e o Oriente – Portugal e Japão...

Fala-nos de morte e renascimento, de abraços culturais, de união de opostos. O Todo e o pormenor, a dança espontânea e o requinte do gesto ritual, a precisão coreográfica e a improvisação em diálogo com o instante. A intenção do som e do movimento na procura da íntima alegria de renascer e celebrar, a sensibilidade do cheiro, do toque, da pétala pele, do florescimento da dualidade num único oceano, quente e frio, de doce e sal, em alegre roseira de coral…

A Alegria das Rosas


Aqui está a imagem criada para A Alegria das Rosas.
Criada por Inês Pereira, membro do colectivo AskYourWish.